Herodes, um rei a serviço do Império (I)

  Os imperadores romanos Otaviano Augusto (27 a.C. – 14 d.C) e Tibério Cezar (14 d.C. – 37 d.C) nunca pisaram nas terras da Palestina, sobre a qual reinou uma dinastia violenta, empreendedora e hábil no trato político. Estar de acordo com as políticas impostas pelo poderoso Império, na conturbada região e esfacelada entre inúmeras propostas religiosas e políticas, foi uma, entre tantas, estratégias adotadas por Herodes, o Grande.

 
  
Sobre a ação das legiões romanas, ninguém melhor que um de seus conterrâneos para descrever as atrocidades praticadas. O historiador Tácito (55-120 d.C.) descreve em detalhes as estratégias, o terror provocado pelas legiões em campo de batalha. O texto colabora na compreensão do que foi a imposição do projeto político intitulado de Paz Romana, ao qual Herodes se mostrou, por anos, fiel colaborador. Tácito afirma
[1] :


...mais perigosos do que todos [os outros dominadores] são os romanos, de cuja arrogância em vão pensamos poder escapar através de submissão e comportamento leal. Esses ladrões do mundo, depois de não mais existir nenhum país para ser devastado por eles, revolvem até o próprio mar; quando o inimigo é rico, eles são ávidos; quando é pobre, ambicionam a sua honra; nem o oriente nem o ocidente satisfizeram a sua gula; são os únicos entre todos que, com a mesma cobiça, querem apoderar-se da riqueza e da pobreza. Saquear, assassinar, roubar – a isso eles chamam de dominação; e ali onde criaram um deserto – a isso eles chamam de “Pax”. Crianças e familiares são para todos, conforme a vontade da natureza, o que temos de mais precioso; através de recrutamento, eles são tirados de nós, para que, em algum outro lugar, façam trabalho escravo; mulheres e irmãs, mesmo quando escapam dos desejos dos inimigos, são violentadas por aqueles que se chamam amigos e hóspedes [=romanos]. Bens e propriedades transformaram-se em impostos; a colheita anual dos campos torna-se tributo em forma de cereal (frumentum); sob espancamentos e insultos, nossos corpos e mãos, são massacrados na construção de estradas através de florestas e de pântanos... 
    

  A paz imposta foi exaltada por poetas e escritores como Virgílio
[2]  e Horácio. Longe da turbulenta Palestina, as metas traçadas pelos imperadores ecoavam, na subjugada província, pelo poder absoluto personificado no Rei Herodes, por seus filhos e pelo procurador romano na região.


A ascensão de Herodes:


    Seguir os passos da família de Herodes é deparar-se com relatos de violência, traições e exaltação ao terror, em meio a obras gigantescas que legitimam o caráter megalomaníaco de líder sem limites. Nascido no ano 73 a.C. e proveniente de uma rica família idumeia (Edomita), filho de Antipater e de Cipros, uma mulher nabateia, Herodes nasce em uma família grego-macedônia que teria se instalado na região do Oriente-Próximo. Em meados do ano 120 a.C., com a conquista da dinastia dos asmoneus, João Hircano autoriza os idumeus permanecerem mas sob a condição de adotarem a circuncisão e se fazerem judeus. Por este motivo, Herodes foi sempre visto pelos moradores da Judeia como um meio-judeu, um usurpador estrangeiro, no governo da religiosa região. 


    Com apenas 15 anos, o pai de Herodes não titubeou em nomear o filho comandante na Galileia, no início dos anos 50 a.C. No exercício de suas funções, Herodes não se esquivou de se fazer reconhecer por Sextus César, um parente do grande Cesar, governador da Síria nos anos de 47-46 a.C


    No final dos anos 40 a.C. Herodes está em Roma, onde, diante do imperador Augusto, promete amizade e fidelidade incondicional, manifestando sua impar habilidade política. Oportuno notar como Josefo narra a indicação de Herodes como rei na Judeia e fiel vassalo da política expansionista romana: “Antonio sai do Senado, abraçado com Herodes, acompanhado pelo corpo consular e de outros magistrados, para irem sacrificar e depositar o senado-conselho no Capitolio”. Esta cena de dezembro do ano 40 torna-se emblemática. Afinal, são os mestres de Roma, seus dominadores, que decidem o destino da longínqua Palestina, ao escolherem um homem, sem nenhuma linhagem real e sacerdotal para o mais importante cargo de governo. 


   Sob o título de Rex socius et amicus populi romani – “rei aliado e amigo do povo romano”, o governo de Herodes não deixou jamais de ser um prolongamento do braço romano na província. Seus poderes foram ilimitados, como ilimitados seus desejos e dotes administrativos. “Sua autoridade política interna incluía todo o direito civil, público e privado, a administração das finanças e o direito de manter um exército pessoal”[3] . Sua política externa será ilimitada. 

 

      Para propagar a ideologia religiosa dos romanos, Herodes incentivou e apoiou nas províncias, distantes de Jerusalém, o culto ao imperador. Um exemplo da mais elevada subserviência foi a reconstrução na antiga cidade da Samaria, construída por Herodes, em meados do 27 a.C, e dedicada a Augusto, com o nome de Sebastia, no grego; no latim, augusta. Na cidade da Samaria, Herodes estabeleceu cerca de 6 mil veteranos comandantes romanos. 

 

Bibliografia básica:


GNILDA, Joachim. Jesus de Nazaré, mensagem e história. Petrópolis, Vozes, 2001.
CIB-MAREDSOUS. Dicionário Enciclopédico da Bíblia, verbete Herodes, 2013.
VILLENEUVE, François. Hérode Le Grand, Le Monde de la Bible, No 182, 183,184, Bayard, Paris, 2008.
VV.AA, Flávio Josefo, uma testemunha do tempo dos apóstolos, São Paulo, Paulinas, 1986.


[1]TÁCITO, Agrícola, 30,3-31,2. Tradução de Ivoni Richter. Cf. REIMER, H. e REIMER, I. R. Tempos de Graça: o jubileu e as tradições jubilares na Bíblia. São Paulo, Sinodal/Paulus/Cebi, 1999, p. 120-121. Giordani oferece inúmeros editos apresentando várias maneiras punitivas e sansões físicas impostas pelos imperadores. Cf. GIORDANI, M. C. História de Roma: antiguidade clássica II. Petrópolis, Vozes, 1985, p. 336-346.

 

[2]Públio Virgílio, (70 a.C.- 19 a.C.), poeta romano clássico, autor de três obras: Éclogas (ou Bucólicas), as Geórgicas, e a Eneida. Virgílio é tradicionalmente um dos maiores poetas de Roma, e expoente da literatura latina. Sua obra mais conhecida, a Eneida, é considerada o épico nacional da antiga Roma. Quinto Horácio Flaco, (65 a.C. — 8 a.C.), poeta lírico e filósofo.

 

[3]GNILDA, Joachim. Jesus de Nazaré, mensagem e história. Petrópolis, Vozes, 2001, p. 36.

 

 

 

Autor: Antonio Carlos Frizzo,fez mestrado no Instituto Católico de Paris e doutorado pela PUC-Rio. Leciona teologia bíblica no ITESP, São Paulo e na Faculdade Católica de São José dos Campos. É assessor do Centro Bíblico Verbo e sacerdote na diocese de Guarulhos, S. Paulo. Nas fotos estão assessoras e assessores do Centro Bíblico que nos dias 8 a 18 de dezembro de 2014 realizaram estudos e visitas aos sítios arqueológicos, Palestina e Israel. 

Templo dedicado ao culto do Imperador Augusto. Foto: Celso Calleff, Samaria, 2014