Entrevista com Israël Finkelstein IV

Antonio Carlos Frizzo [1]

 

Nesta última parte da entrevista, Finkelstein acentua o vasto império projetado pela reforma do rei Josias (II Rs 22-23), em uma cultura altamente politeísta vivenciada em Israel, reino do Norte. Como bom mestre, não deixa de dar oportunos conselhos aos desejosos em estudar arqueologia.

 

Grupo: Não poderia ter sido elaborado este vasto império no reinado de Josias?

 

Israël Finkelstein: Creio que este sonho de um vasto reino pode ter ocorrido no momento em que um grande número de pessoas – em pleno cerco assírio – deixaram a região da Samaria passando a habitar no reino de Judá. Tal mudança demográfica foi sumamente importante. Vale ressaltar que a sociedade israelita, na época da dominação do reino da Assíria já era pan-israelita. Muitas pessoas passaram a residir ao redor da cidade de Jerusalém, com mais migrantes do Norte do que propriamente do Sul. Vale ressaltar que para fazer parte desse grupo, tudo teve um preço. Primeiro, aceitar a supremacia da dinastia davídica e, o segundo, a soberania do templo de Jerusalém.

 

Grupo: Como você compreende a existência do reino do Norte?

 

Israël Finkelstein: Estou convicto que o reino de Israel era muito mais importante do que o reino de Judá na antiguidade. Todas as grandes tradições foram provenientes do reino do Norte. Não tenho dúvidas sobre isso. Por volta dos anos 750 a.C. Israel tinha total supremacia. Hoje, ao lermos a bíblia temos a impressão de que Judá era a grande história. Isso é decorrente do colapso do reino do Norte. Israel sempre foi a grande história, com seus exércitos, suas tradições dinásticas, seus templos, suas riquezas. Os grandes personagens como Elias, Josias, Amós, Moisés são tradições originarias do reino do Norte. Oportuno voltar à primeira questão. Meu trabalho é reconstruir a história com as ferramentas que tenho em mãos, não considerando somente o texto, mas as demais ferramentas. Deixo-me ser pautado pela arqueologia independentemente do texto. Com os instrumentos disponíveis na ciência arqueológica, somados a química e física, tenho plena convicção que não houve nenhuma possibilidade de erigir um reino no Sul, isto é Judá e sua capital Jerusalém, antes dos anos 800 a 700 a.C. Essa é a certeza que tenho em mãos hoje. Estou consciente que tal afirmação pode mudar, pois a arqueologia desenvolve-se rapidamente e as teorias não ficam para trás.  Tal ressalva é necessária para se evitar qualquer tipo de afirmações também fundamentalistas no universo da arqueologia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Grupo: Para terminar, qual o conselho para um jovem que deseja estudar arqueologia? 

 

Israël Finkelstein: Eu aconselhei as minhas filhas a estudaram direito... (risos). Brincadeiras a parte, a carreira é difícil por não haver muito espaço de trabalho e por haver muitas pessoas talentosas desejosas por ocupar o mesmo espaço. Vejamos alguns dados. No ano passado abrimos uma vaga no departamento. Vinte pessoas concorreram. Dentre essas, quatorze tem a capacidade de atuar em qualquer universidade dos Estados Unidos. Uma realidade trágica para pessoas com a média de trinta anos de idade e que precisam de trabalho. Eu estou feliz por encontrar, cada vez mais, pessoas desejosas de estudar arqueologia. Mas o caminho profissional não é fácil. É bom levar em conta que é preciso, em média, quinze anos de estudo para preencher suas inquietações acadêmicas e conseguir algum resultado profissional.

 

[1] Antonio Carlos Frizzo, 57, fez mestrado no Instituto Católico de Paris e doutorado pela PUC-Rio. Leciona teologia bíblica no ITESP, São Paulo e na Faculdade Católica de São José dos Campos. É assessor do Centro Bíblico Verbo e sacerdote na diocese de Guarulhos, S. Paulo. Nas fotos estão assessoras e assessores do Centro Bíblico que nos dias 8 a 18 de dezembro de 2014 realizaram estudos e visitas aos sítios arqueológicos, Palestina e Israel. 

 

 

Grupo de estudantes do Centro Bíblico, Universidade de Tel Aviv, Israel