Entrevista com Israël Finkelstein IV

Antonio Carlos Frizzo [1]

 

Finkelstein relata dificuldades na recepção de suas obras, por setores mais conservadores, em Israel. Destaca a importância do termo Israel, na estela de Mernephtah, mas busca compreender “qual Israel” é referendado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Grupo: Pode nos dar um exemplo dessa diversidade israelense?

 

Israël Finkelstein: Muito simples. Quando sou convidado para um programa de entrevista na TV sempre os organizadores me colocam diante de alguém com ideias completamente opostas ao meu ponto de vista. Geralmente eles convidam um religioso ultraortodoxo. Afinal, o pessoal da televisão quer ver sangue... (risos). Eu reflito e falo sobre um determinado texto bíblico, minha opinião. O outro, imediatamente diz: “Ok. Essa é tua opinião, mas eu tenho minha fé, meu modo de ver e interpretar esse mesmo texto. O que você quer de mim?” Creio que esse tipo de reposta é positivo. Devemos entender que há mesmo uma linha que divide pesquisa e fé. Às vezes essas duas linhas se cruzam, mas na mente deve estar bem definido o que é fé e o que é ciência. Outro exemplo é de um jovem, em Tel Aviv, que me encontrou e me disse: “Olha Finkelstein, comprei o seu livro e o li em três dias”. Isso para mim não deixa de ser uma boa demonstração de que meu trabalho é bem recebido em determinados setores da sociedade.

 

Grupo: Na estela do faraó Mernephtah[2] (1236 a 1223 a.C.) encontramos, pela primeira vez, uma nítida citação ao nome de Israel. Qual sua compreensão sobre esta referência? 

 

Israël Finkelstein: De fato é a primeira citação ao nome Israel. Mas o problema é que somente 250 anos mais tarde, encontramos novamente o nome Israel, ligado ao reinado de Acaz. Este silêncio, este buraco de 250 anos é um desafio para a arqueologia. Outro desafio é que não temos como medir, ou melhor, conhecer a densidade desse Israel citado na estela de Mernephtah.  Não sabemos se se tratam de agricultores ou de um grupo de pastores sedentários ou nômades. Se viviam na planície ou nas regiões montanhosas em Israel ou na Transjordânia. Esse fato de citar Israel na estela, no final, deixa um grande espaço para as interpretações, pois não sabemos de que Israel se trata.

 

Grupo: Podemos pensar neste Israel vivendo em vilas ou cidades sem muralhas?

 

Israël Finkelstein: Sim. Mas isso procede do que eu disse: depende do tipo de interpretação. O importante é que estamos abordando as raízes do antigo Israel, do século XIII a.C. De alguma forma, a estela fornece um tipo de testemunho do surgimento de Israel a partir da população existente em Canaã na era do bronze.

 

Grupo: O que a arqueologia nos diz sobre o reino unido de Davi e Salomão?

 

Israël Finkelstein: Pode-se abordar esta questão tanto pelo lado dos textos bíblicos como pelo lado dos dados arqueológicos. Deixe-me começar pela arqueologia. No passado a  arqueologia foi usada para legitimar aspectos religiosos, isto é, provar a existência de Jesus, a existência do templo de Salomão e outras preocupações neste sentido. Encontra-se uma arqueologia a serviço de uma afirmação religiosa. Mas esta não é a função e, muito menos, o objetivo da arqueologia. O objetivo final da arqueologia é verificar o que houve em um determinado período da história. Que civilização existia? Como eram as relações entre determinados grupos? Em Meguido, um dos primeiros lugares onde comecei meus estudos, quando juntei os diferentes materiais e resultados das pesquisas, constatei que não fazia sentido algumas afirmações em voga referente às datações ditas pela história bíblica. Elementos datados do ano 1000 a.C. em Meguido, Bet Shean[3], reanalisados, seguindo outros métodos de pesquisa arqueológica e, com o apoio de outras ciências, acenam uma datação diferente. Essa cronologia poderia abaixar para os anos 900 a 800 a.C. Tal verificação resultam diferentes interpretações das mesmas questões. Há 15 anos começamos um debate no desejo de revisar as   datações tradicionais no tocante ao mundo bíblico e, os resultados foram surpreendentes. Com o recurso de análise de carbono 14, o que antes era datado no período do rei Salomão, agora são tidos como de 80, 70 anos depois do reinado salomônico. O grande reino do Norte, bem como as importantes obras, atribuídas ao rei Salomão, agora, são vistos como pertencentes à dinastia de Anri (885-874 a.C).  Nesta fase, coloco minha cabeça a prêmio, pois os resultados entram em confronto com o que era defendido pela própria arqueologia há 15 anos. Para dar outro exemplo, cada amostra submetida ao teste de carbono 14 custa, aproximadamente, US$ 1000 e eu tenho – só de Meguido -  cerca de trezentas peças para análises. Saibam que eu não pertenço às escolas que duvidam da existência de Salomão, pois há elementos que provam sua existência. Não temos nada fora da bíblia capaz de provar a existência de Salomão. Tal realidade leva vários estudiosos a não creditar sua existência. Eu não sou desse grupo, pois creio que há inúmeras provas para creditar nos reinos de Davi, Salomão e toda cadeia de monarcas, tal como nós a conhecemos. A questão é saber qual foi a jurisdição, o alcance desses reinados, as extensões desses reinos. Houve uma existência paralela de dois reinos: reinos de Judá e reino de Israel. Agora, sobre a monarquia unida, penso que há outra história. Quando lemos a bíblia vemos tudo bem arranjado, cada peça em seu lugar. Tudo foi escrito no desejo de enaltecer um único reino. Mas a história aponta para outros caminhos. Deparamo-nos com uma construção teológica muito bem elaborada. Algo tipicamente teológico.  Os textos descrevem o sonho de um reino único. Tal desejo teria sido escrito no tempo do reinado de Ezequias.

 

 

[1] Antonio Carlos Frizzo, 57, fez mestrado no Instituto Católico de Paris e doutorado pela PUC-Rio. Leciona teologia bíblica no ITESP, São Paulo e na Faculdade Católica de São José dos Campos. É assessor do Centro Bíblico Verbo e sacerdote na diocese de Guarulhos, S. Paulo. Nas fotos estão assessoras e assessores do Centro Bíblico que nos dias 8 a 18 de dezembro de 2014 realizaram estudos e visitas aos sítios arqueológicos, Palestina e Israel. 

 

 

[2] “A semente de Israel não mais existe...”. Trata-se de uma afirmação exaltando os triunfos realizados pelas forças egípcias, comandadas pelo faraó Mernephtah que reinou entre 1213 – 1203 a.C. A estela – bloco maciço de granito escrita em hieróglifo - foi erigida em meados do ano 1207 a.C. e encontrada na região do Luxor, em 1896, pelo egiptólogo Flinders Petrie e, aponta “Israel” como um grupo de pessoas residentes em Canaã. 

 

[3] Os primeiros vestígios de ocupação em Beit Shean remontam ao IV milênio a.C. Seu nome está gravado sobre os muros de Karnak, Egito, durante o reinado do faraó Tutimosis III, 1460 a.C. A cidade está localizada na fértil  região do vale do Jordão, na encruzilhada das rotas comerciais Norte e Sul, na Galileia e funcionou sem interrupção, do IV século a.C ao período bizantino (324 d.C – 638 d.C). Nas narrativas do deuteronomista, os filhos de José murmuram contra Josué por terem como herança terras dos cananeus cujo seus moradores possuem “carros de ferro, bem como os de Betsã e das cidades que dela dependem” (Js 17,16).

 

Laboratório de Cerâmica, Universidade de Tel Aviv, Israel

Foto: Rose Medeiros

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