Entrevista com Finkelstein III

Antonio Carlos Frizzo [1]

No relacionamento entre os textos bíblicos e a arqueologia,

Finkelstein afirma que “o texto bíblico é uma redação tardia.

Ele foi escrito séculos depois de um determinado fato.

A Bíblia não narra uma história ocular”, nesta terceira parte da entrevista.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Grupo: Como reagir diante de algumas interpretações de cunho mais ortodoxos, comentários provenientes de correntes ou correntes mais fundamentalistas na interpretação dos textos bíblicos?

 

Israël Finkelstein: Oportuno afirmar que eu não sou contra esta ou aquela corrente hermenêutica. O que sei é que não sou um ingênuo, um fundamentalista. Faço a minha pesquisa com os rigores impostos pelos métodos exegéticos. Busco compreender os rigores dos métodos que não são novos no universo da leitura e estudo bíblico. Estou numa linha pautada por Baruch Espinoza[2] que estabeleceu as bases do método filosófico e teológico e que séculos mais tarde possibilitou o método histórico crítico que conhecemos hoje. Claro que por ser israelita e judeu a bíblia tem um significado, um valor quase que carnal, para meu universo cultural. O texto é muito importante para mim. Não estou indo somente para o lado do criticismo. Não me deixo influenciar por nenhum aspecto político. Estou no ponto de vista da pesquisa e, isso me é muito caro. Algo gratificante. Os textos bíblicos fazem parte do meu DNA... (risos). Estou convicto de que ler as páginas bíblicas de modo ingênuo, descontextualizado é reproduzir o desrespeito para com os seus autores. Os autores bíblicos foram verdadeiros gênios da humanidade. Produziram seus textos dentro de uma determinada cultura, numa determinada situação, dentro de um background, e ler esses textos de maneira ingênua, fora de seus contextos, não deixa de ser um desrespeito aos autores.

 

Grupo: Qual a exata especificidade entre os textos bíblicos e a arqueologia?

 

Israël Finkelstein: O texto bíblico é uma redação tardia. Ele foi escrito séculos depois de um determinado fato. A bíblia não narra uma história ocular. Já, a arqueologia, que também é uma ciência, conta os fatos em tempo real. A arqueologia narra o exato momento do fato.  Todas as vezes que tenho a minha frente um determinado texto bíblico eu me pergunto: o que está acontecendo aqui? Porque estou vindo com uma ferramenta muito poderosa que é a arqueologia? Por meio dos fragmentos arqueológicos podemos reconstruir um determinado momento histórico. Tal contexto histórico pode ser comprovado em todo o seu rigor, e eu não preciso justificá-lo com os textos bíblicos. Aqui está um ponto fundamental nesta relação bíblia e arqueologia. A arqueologia se impõe por si mesma. Outro aspecto que me inquieta é saber como relacionar um determinado texto com a arqueologia. Isto para mim é maravilhoso. Saber como a partir de uma narrativa, escrita num estilo próprio do hebraico antigo e, analisá-lo mediante aos estudos arqueológicos. Nesta interação entre ciências – hermenêutica e arqueologia – não há espaço para a ortodoxia, ao fundamentalismo. Estou convicto que os dois ambientes – bíblia e arqueologia – devem seguir mantendo um estreito diálogo. Outro ponto que destaco está em saber que  existem duas formas de se olhar a história de um texto bíblico:  um é o aspecto conservador ou fundamentalista; outro  é o ponto de vista minimalista. Eu não me alinho a nenhuma dessas duas correntes. Opto por uma linha teórica na qual não estou sozinho e que se encontra entre estas duas tendências hermenêuticas.

 

Grupo: Como suas publicações vêm sendo recebidas em Israel e como conseguir apoio financeiro para as pesquisas?

 

Israël Finkelstein: Alegra-me em responder esta pergunta. Algo muito patriótico. Israel é um país por demais democrático. Não há nenhum tipo de censura no universo acadêmico. O dinheiro não vem diretamente do governo, mas há uma fundação responsável em fazer a ponte entre governo e a Universidade. Podemos fazer o que é necessário desde que ensinemos com o rigor da ciência. A fundação repassa o dinheiro independentemente da área de pesquisa, sem nenhuma ingerência política.  “Quantos dias vocês vão ficar em Israel?”. Alguém do grupo responde: “10 dias”. Ok. Penso que em 10 dias vocês terão oportunidade de perceber como Israel é um país completamente diverso, onde não existe somente um olhar para os fatos. Tel Aviv, uma cidade liberal; Jerusalém, com um acento mais religioso, pessoas religiosas e não religiosas, ortodoxos e não ortodoxos, socialistas radicais e outras freneticamente capitalistas. Tamanha diversidade dificulta responder como minhas publicações são acolhidas por um   determinado público. (segue no próximo artigo)

 

[1] Antonio Carlos Frizzo, 57, fez mestrado no Instituto Católico de Paris e doutorado pela PUC-Rio. Leciona teologia bíblica no ITESP, São Paulo e na Faculdade Católica de São José dos Campos. É assessor do Centro Bíblico Verbo e sacerdote na diocese de Guarulhos, S. Paulo. Nas fotos estão assessoras e assessores do Centro Bíblico que nos dias 8 a 18 de dezembro de 2014 realizaram estudos e visitas aos sítios arqueológicos, Palestina e Israel. 

[2] Filósofo holandês de ascendência judaico-portuguesa, nascido em 1632. Seu comportamento expressa uma total fidelidade ao senso ético e radicalidade no uso da razão. O alvo máximo da razão humana é a felicidade. Em 1670 publica o “Tratado Teológico-Político”, após amargar sua expulsão dos círculos judaicos, ocorrida em 1656. Sua obra de maior relevo “A Ética” foi publicada postumamente no ano de 1677, ano de sua morte.

Foto: Rose Medeiros, Manaus/AM

Israël Finkelstein dialoga com alunos do Centro Bíblico Verbo