Entrevista com Finkelstein II

Antonio Carlos Frizzo [1]

Nesta segunda parte da entrevista, o professor Israel Finkelstein

segue  descrevendo seus projetos na área da arqueologia. Apresenta duas áreas de pesquisas: a geoarqueologia –  em parceria com outros centros de pesquisas – e seu interesse pessoal pela história bíblica.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Grupo: Diga-nos sobre o segundo chapéu.

 

Israël Finkelstein: Um segundo chapéu, este sim, intensificado nos últimos cinco ou sete anos, é uma área de pesquisa que acontece com o apoio da União Europeia na esfera da ciência da vida e do universo da geoarqueologia. Olhando moléculas, detalhes moleculares que podem mudar o entendimento da história. Eis um projeto que me estimula muito. Percebo que estamos descobrindo elementos novos que podem nos ajudar a reconstruir o conhecimento da história humana. Esse projeto já gerou mais de 60 artigos em diferentes revistas especializadas.  Recentemente estudando algumas moléculas descobrimos partículas de canela datando o ano 1000 a.C., da época dos fenícios, e, como canela é algo que não existe nesta região, somos convidados a pensar que o comércio entre os povos desta região com os povos da Índia eram muito mais frequentes do que podemos imaginar. Outro exemplo, eu pessoalmente acredito que o futuro da pesquisa está baseado na análise da população e no estudo do clima. Por exemplo, um trabalho realizado na região do Mar Morto, em análises do pólen e do carvão encontrados naquela região. As análises dos materiais acenaram que entre os anos de 1250 a 1100 a.C, a região passou por uma forte crise climática. Um artigo publicado no New York Times teve grande repercussão nos ambientes de pesquisas. Por favor, não pensem que estou só ou que eu seja o líder nessa área de estudo. Formamos um grande time com a participação de dois botânicos – um da Alemanha e outro de Israel; dois geólogos e, na esfera da arqueologia molecular, contamos com a participação de um grupo de químicos. Reforçando: todo esse trabalho é feito em equipe. Conto, ainda, com um grupo de estudantes que eu, particularmente, acompanho. Claro que o campo territorial das pesquisas não prioriza somente Israel. Nosso desejo é estender os trabalhos na região da Síria, Jordânia, mas diante dos atuais conflitos não é possível expandir por demais o campo de pesquisa, o que nos obriga a priorizar a região da Grécia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[1] Antonio Carlos Frizzo, 57, fez mestrado no Instituto Católico de Paris e doutorado pela PUC-Rio. Leciona teologia bíblica no ITESP, São Paulo e na Faculdade Católica de São José dos Campos. É assessor do Centro Bíblico Verbo e sacerdote na diocese de Guarulhos, S. Paulo. Nas fotos estão assessoras e assessores do Centro Bíblico que nos dias 8 a 18 de dezembro de 2014 realizaram estudos e visitas aos sítios arqueológicos, Palestina e Israel. 

 

 

[2] Em 2001, em parceria com Neil Asher Silberman, Filkelstein publica um inquietante trabalho sobre a história do antigo Israel. O título original da obra é The Bible Unearthed: Archaeology`s new vision of Ancient Israel and the Origin of its Sacred Texts, traduzido ao português com o título A Bíblia não tinha razão, São Paulo, A Girafa, 2003. Na obra, após 8  anos de pesquisa, os autores relacionam os informes bíblicos com suas descobertas arqueológicas sobre o processo de ocupação e formação do povo de Israel.

 

Grupo: E vamos ao terceiro chapéu.

 

Israël Finkelstein: Meu terceiro chapéu, e isso penso que vos interessa, é a história bíblica [2]. Meu interesse pela Bíblia veio por meio dos meus estudos na esfera da arqueologia. Sobretudo, na ânsia de reconstruir a história bíblica. A arqueologia me levou para o universo bíblico. Estou indo cada vez mais a fundo neste universo, em parceira com outros pesquisadores temos já publicados alguns trabalhos na Suíça, Alemanha e França. Os estudos bíblicos são muito significativos na Alemanha, onde me identifico. Lá, desenvolvemos um olhar similar junto aos textos bíblicos. Recentemente publicamos dois artigos tentando entender as diferenças nas tradições e leis em torno de personagens como Abraão e Jacó, no livro do Gênesis. Outro exemplo é nossa pesquisa junto ao livro de Crônicas. Neste livro buscamos verificar, entender as  datas e a arqueologia territorial  citados no texto.

Finkelstein fala aos alunos, no Departamento de Arqueologia, Universidade de Tel Aviv

Classificação das cerãmicas , Universidade de Tel Aviv

Grupo: Qual o orçamento estimulado para uma expedição deste tipo?

 

Israël Finkelstein: Para vocês imaginarem o custo de uma expedição como as que realizamos, num período de sete semanas no campo, sem contar fotografias, materiais de restaurações, tudo isso fica na casa de US$ 350 mil, aproximadamente.  Depois dessa primeira etapa, temos ainda todo o processo de catalogar e especificar os materiais recolhidos com um grande time formado por estudantes e especialistas. Eis aí um dos meus chapéus.

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