Entrevista com Finkelstein (I)

 

 

Por Antonio Carlos Frizzo[1]

“ Estou convicto de que ler as páginas bíblicas de modo ingênuo,

descontextualizado é reproduzir o desrespeito para com os seus autores...”

 

Esta entrevista é resultado de um planejado encontro. Em meados de 2013, professores e estudantes na esfera bíblica, ligados ao Centro Bíblico Verbo,  resolveram realizar uma viagem de estudo por sítios arqueológicos em Israel. Os locais a serem visitados são previamente estudados. Livros, DVD’s e um maior número de informações circulam entre os componentes do grupo. Michael Motola, diretor do Centro de Educação Oranim, localizado em Tivon, norte de Israel, de amigo passa a ser nosso embaixador ao contatar um nome que surge como o primeiro na lista quando o tema busca unir arqueologia e Bíblia: professor  Israël Finkelstein, diretor do Instituto de arqueologia da Universidade de Tel Aviv e codiretor da missão arqueológica   Meguido, Galileia.  No segundo dia de viagem, nosso grupo é calorosamente recebido pelo professor Finkelstein. Nesta entrevista buscamos percorrer a visão singular e inquietante desse arqueólogo que optou em se aproximar da Bíblia e de sua história. Tivemos a liberdade de promover algumas adaptações na tradução e na edição deste encontro realizado na manhã de 9 de dezembro, auditório Moshe Danyan,

Universidade de Tel Aviv.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Grupo: Conte-nos de suas atividades no mundo da arqueologia, de seus afazeres como professor e pesquisador.

 

Israël Finkelstein: Antes de qualquer coisa, gostaria de afirmar que estou me divertindo muito neste encontro. Vejo-me como uma pessoa de muita sorte. Quando eu era estudante não tinha condições para pagar meus estudos de arqueologia. Hoje, ganho a vida com arqueologia, embora não ganhe  muito... (risos). Vocês vieram de longe. Empenharam-se por estar aqui e isso me comove. Sejam realmente bem vindos.  Sou

um professor de arqueologia com especialização na época do bronze[2], ensino história bíblica e outras coisas. Atuo em três grandes projetos. Penso ser mais atraente afirmar que uso três importantes chapéus.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Grupo: Então, quais são estes importantes chapéus ou áreas nas suas pesquisas?

 

Israël Finkelstein: Meu primeiro chapéu é a escavação. Tenho em Meguido[3] meu importante projeto. A cada dois anos saímos para a pesquisa de campo. Recentemente, estivemos dois meses no local, com um grupo de 140 estudantes e  mais uma equipe de apoio formada por 30 pessoas que colaboraram diretamente na infraestrutura. Não apenas escavamos como também ensinamos os alunos. Iniciávamos os trabalhos bem cedo. Das 5h da manhã até  às 13h as equipes estavam  no campo. Na parte da tarde, ensinávamos, juntamente com todos da expedição, arqueologia e seus métodos, história de Meguido, datações, análises dos ossos, das porcelanas, os metais encontrados e outros temas relacionados ao universo da arqueologia. Esse tipo de trabalho acontece a cada dois anos e começamos com este ritmo há 20 anos. Nele se envolve uma grande equipe formada por especialistas nas áreas da metalurgia, geologia, arqueologia, zoologia, biologia e botânica. Por se tratar de um grande projeto é necessário algo indispensável, a saber: o dinheiro. E isto não é fácil, pois não recebemos nenhuma verba da Universidade, nem do Estado de Israel. Para isso, cada um tem que providenciar seus próprios recursos financeiros e torcer para ter apoio de algumas agências de pesquisas e doações privadas. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[1] Antonio Carlos Frizzo, 57, fez mestrado no Instituto Católico de Paris e doutorado pela PUC-Rio. Leciona teologia bíblica no ITESP, São

Paulo e na Faculdade Católica de São José dos Campos. É assessor do Centro Bíblico Verbo e sacerdote na diocese de Guarulhos, S. Paulo.   Nas fotos estão assessoras e assessores do Centro Bíblico que nos dias 8 a 18 de dezembro de 2014 realizaram estudos e visitas aos sítios arqueológicos, Palestina e Israel. 

 

 

[2] Na arqueologia o período de bronze é dividido em três momentos: Bronze Antigo 3.300 – 2200 a.C; Bronze Médio 2200 – 1550; Bronze recente 1550 – 1200 a.C.

 

[3] A cidade de Meguido, localizada nas proximidades do Monte Carmelo, domina toda planície de Jezrael e, distante 17 quilômetros a sudoeste de Nazaré. Desde o período Calcolítico (3300 a.C.) ao período persa (536 a.C), estimasse que mais de 20 diferentes ocupações humanas utilizarem este estratégico lugar situado na rota do mar unindo o Egito à Síria. Na Bíblia, a cidade adquire um valor secundário: uma cidade cananeia que recebeu importantes obras no tempo do rei Salomão (1Rs 9,15); na tradição deuteronomista, o local referenda a morte de dois reis de Judá: Ocozias (2Rs 9,27-29) e Josias (2Rs 23,29-30). Os primeiros trabalhos arqueológicos realizados em Meguido foram iniciados pelo Instituto Oriental de Chigado, em 1920.  

Foto: Catapan

Prof. Finkelstein fala ao grupo do Centro Bíblico, na sala Moshe Daian

Maria Antônia, Catapan e Dietrich conversam com Finkelstein