Deusas e deuses que protegem a vida e garantem a felicidade

 

Por Antônio Frizzo

 

As recentes descobertas arqueológicas forçam um diálogo, cada vez mais crescente e frutuoso, com os textos bíblicos. Não se trata, de modo apressado, refutar afirmação histórica vindo à luz pela ciência arqueológica, muito menos, desesperadamente e de modo ingênuo, negar séculos da tradição literária. Salutar, sim, realçar que o estudioso bíblico deve se deixar levar pelo contexto do texto e o resultado comprovado da arqueologia. A cautela pode impedir conclusões apressadas em favor da tese do leitor em detrimento ao texto e contexto histórico.

 

Nossa finalidade é expor aos leitores e leitoras da bíblia aspectos da História Antiga que precederam a fase redacional dos textos bíblicos. Com base em figuras, objetos, textos e monumentos compreender a grandiosidade e complexidade dos povos circunvizinhos ao território de Israel, que influenciaram a redação dos textos bíblicos. Abrimos esse espaço com a apresentação de duas divindades :a deusa Maat e o deus Min.

Maat: Uma pena de avestruz sobre a cabeça de uma jovem mulher orna a deusa da “justiça” ou da “verdade”. Maat era a divindade responsável por esses dois pilares sobre o qual está fundamentado o equilíbrio social. A harmonia entre os povos, a prosperidade e felicidade de um governante se faz na administração da justiça e verdade.

 

No Antigo Egito ela era reconhecida como filho do deus Rá, ou deus Sol.

A tarefa essencial de um rei era de governar com justiça (2Sm 23,1-7; Is 11,1-9; Sl 72; Sb 1,1). Sem o exercício da justiça impera o caos, o desequilíbrio, a fome e a peste. Ameaças pairam sobre o reino. Eis o motivo que obrigava os sacerdotes oferecem diariamente culto à deusa Maat em seus templos, espalhados nas regiões de Mênfis e Deir el-Medina, entre os anos de 1500 – 1080 a.C.

 

Viver em conformidade com a deusa Maat era garantia de fazer parte da vida futura. Ao morrer o coração do falecido era colocado em um dos pratos da balança para ser julgado. Em outro prato estava a pena de Maat. Caso houvesse equilíbrio o morto era entregue para gozar da felicidade; diante do desequilíbrio da balança o falecido era encaminhado para o reino de Ammit para ser devorado, pondo um ponto final em sua alma.

 

Min: Tendo na mão esquerda seu pênis ereto e na mão direita um chicote levantado, Min manifesta seu poder na abundância das chuvas, nas boas colheitas e na ampla reprodução dos animais – ovelhas, bois e cabritos.   Sobre a cabeça de Min estão duas plumas retas e altas, manifestando sua altivez, seu poder,assemelhando-se ao deus Amon (deus dos deuses). Seu culto foi amplamente comemorado nas regiões de Akhamin e Coptos – entre o vale do Nilo e o mar Vermelho.

A solenidade de sua festa marcava o início do período apropriado para as colheitas e nela eram apresentadas sementes de alface ou outras hortaliças simbolizando a força de seu sêmen reprodutor.

 

Na mitologia grega, Min identifica-se com o deus Pan, deus dos bosques, rebanhos e pastagens. Tendo sobre a cabeça enormes cachos de uvas, representando a boa colheita, a fertilidade do solo e a fartura, seu corpo tem o formato de metade ovelha e metade homem. Era um deus temido por viajantes e andarilhos noturnos, que o invocavam pedindo proteção e certeza de boa viagem. Uma vez sobre a predileção de Pan, acreditavam estar imunes ao pânico.

 

Na região conhecida como Banias, localizada aos pés do monte Hermon, Herodes Mágno (37 – 4 a.C.) edificou uma imponente cidade rodeada de inúmeras nascentes que se unem na formação do rio Jordão, que desce rumo ao mar Morte, ao sul. O Novo Testamento registra a declaração da divindade de Jesus, nessa região, ao redor de Cesareia de Filipe,cidade pertencente ao antigo território de Dã. O realce da narrativa impõe-se ao fato de Mateus preferir apresentar a divindade de Jesus numa localidade onde o culto ao deus Pan gozava de relativa devoção desde o período helenista (Mt 16,13).

 

Antonio Carlos Frizzo é professor de Teologia Bíblica. Estudou tradição judaica no Instituto Pontifício Ratisbonne, Jerusalém, possui doutorado pela PUC-RJ. É assessor no Centro Bíblico Verbo e professor no ITESP, São Paulo.

Contatos: acfrizzo@uol.com.br.

 

 

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