Jerusalém dos herodianos (40 a.C – 10 d.C)

           Do período pré-monárquico à glamorosa Jerusalém Herodiana passaram-se muito séculos.  Na atual esplanada do templo, os visitantes se depararem com dois importantes santuários da religião islâmica. A cúpula dourada, conhecida como Domo da Rocha, é uma santuário de forma octogonal, contendo cada lado vinte e um metros e abriga uma pedra de cerca 5 metros de altura, medindo 18x15m. Segundo a tradição, sobre esta pedra Abraão levantou um altar para sacrificar seu filho Isaac (Gn 22,2). O santuário, mais que mesquita, foi edificado entre os anos de 687 – 691, pelo califa Abd al-Malik, no desejo de perpetuar a dinastia omíada.

            Ainda na esplanada, saindo do Domo da Rocha, rumo ao sul, após andar alguns minutos, encontra-se Al-Aqsa, uma gigantesca mesquita medindo 90x70m, construída a mando do califa Abd al-Malik. Terremotos ocorridos em 746 e 1033 impuseram-lhe inúmeras reformas. Com os restauros de 1938-1942 a mesquita chegou a sua forma atual.  Abaixo dessa área, medindo 140 mil metros quadrados, hoje conhecida como esplanada do Templo, esteve o santuário de Jerusalém, idealizado por Herodes o Grande.  

 

   

 

 

 

 

 

 

 

   

 

Uma vila marcada pela herança cananeia

            Se tivesse prevalecido o lugar geográfico, Jerusalém estaria condenada ao isolamento. Na margem do deserto de Judá, enfronhada entre morros e colinas que chegam a medir 800 metros acima do Mar Mediterrâneo, longe de qualquer significativo rio, a cidade poderia ter permanecida um bucólico lugar de recolhimento ou de um refugio garantido para qualquer criminoso.  Mas entre tantas constelações de cidades, Jerusalém acabou se tornando um importante polo (Is 2,2-3).

              Em meados da Idade do Bronze recente (1550 a.C. -1150 a.C), encontramos, nos anais das Cartas El-Amarna, o primeiro registro literário de uma localidade chamada Urusalim. Um serviçal dos egípcios na região solicita uma rápida presença dos armeiros para fazer frente ao avanço dos Habirus. Não se sabe se o socorro chegou mas o conteúdo da missiva acena desesperadora situação frente ao avanço inimigo:  “aos pés do rei eu me joguei sete e sete vezes. Eis que Milkily e Shuwardatu fizeram contra a terra. Eles comandaram  as tropas de Gezer [...] contra a lei do rei [...]. A terra do rei foi para os habirus (desordeiros saqueadores). E agora uma cidade pertencente a Jerusalém foi para os homens de Qiltu. Que o rei de ouvidos a Abdi-Hepa, seu servo, e mande arqueiros”.  O nome do príncipe egípcio Abdi-Hepa poe em relevo que se trata de uma cidade-estado com ligações diplomáticas e estratégias com o Egito.

              A vitalidade da vila, no final da idade do bronze ou no início da idade do ferro, entre 1.200 a 1.000 a.C., pode ser verifica-se por uma construção monumental de uma muralha, onde cinquenta e cinco passos são visíveis na extremidade superior que desce em direção ao túnel de que leva à piscina de Siloé. Tais muralhas que circundavam uma forte corrente de água evidenciam uma vila prospera, muito antes do século X a.C.

             As seguintes maquetes utilizadas didaticamente pelos guias em visitas nas atuais escavações realizadas junto aos alicerces do templo herodiano, possibilitam certa percepção do desenvolvimento urbano ocorrido nesta região. Na Idade do Bronze uma pequena cidade-estado subordinada ao controle governamental egípcio; a internacionalização da cidade com seu suntuoso templo, mercado, magníficos edifícios ocorrerá diante da ocupação romana.  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Esplanada

             Foi Herodes o Grande que fez da Jerusalém a mais bela cidade do Oriente próximo antigo. Seu espírito de empreendedor obcecado transforma a pacata cidadela numa verdadeira capital de um universo realmente cosmopolita. Ao assumir o comando de toda a Palestina, Herodes não perdeu tempo em destruir o primeiro templo e sobre a mesma montanha edificar uma das maravilhas do mundo, na época.

            O Sumo Sacerdote e o Sinédrio sentiram-se obrigados a dialogar com o novo soberano. Sacerdotes foram treinados para colaborarem na edificação dos lugares sagrados e em certas dependências do templo. Entalhadores, calculistas, carpinteiros, marceneiros serão convidados a trabalharem, por oito décadas no novo templo. O Santo dos Santos foi edificado em dois anos. Poder e dinheiro não faltariam para custeio de um templo que atrairá sobre si e suas dependências viajantes, peregrinos e uma variada e rica rede de comerciantes.

            Situada numa altitude de 640 e 770 metros acima do nível do mar Mediterrâneo, cercada por uma cadeia de montes que a esconde das vistas dos passantes: ao Norte, o monte Scopus (râs el-Mešârif); ao sul, o jebel Mukabbir; a leste, o monte da Oliveiras; a oeste, cumes de 850 metros, a cidade sempre possibilitou algo essencial para seus habitantes e governadores: segurança.

            Sob o comando de Herodes, que a governou com mãos de ferro, entre os anos de (37 a.C- 4 a.C.), a cidade de Jerusalém sofre um violento processo arquitetônico. Até o ano de 63 d.C, grande soma de recursos financeiros e humanos serão direcionados e gastos na reconstrução do magnífico Templo. Grandes conjuntos arquitetônicos vistos hoje por milhares de turistas, são resultados do empolgante espírito desse empreendedor, tirano e hábil diplomata. Herodes manda construir no bairro sudoeste seu palácio, fechado por três imponentes torres (porta de Jafa); No canto noroeste do Templo, ele reconstrói a antiga cidadela bîrāh e a chama de Antônia. A leste da Acra, edifica uma ágora, fechada por uma colunata, o Xisto, de onde parte uma ponte que leva sobre o Tiropeu para a esplanada do Templo. Sistema de água, piscinas, mercados marcam os trabalhos para embelezar o Templo e sua esplanada, como os vistos por ele em Roma.

 

 

 

 

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Autor: Antonio Carlos Frizzo,fez mestrado no Instituto Católico de Paris e doutorado pela PUC-Rio. Leciona teologia bíblica no ITESP, São Paulo e na Faculdade Católica de São José dos Campos. É assessor do Centro Bíblico Verbo e sacerdote na diocese de Guarulhos, S. Paulo. 

Foto 1: Domo da Rocha tendo abaixo o Muro das Lamentações

Foto 2: Vista do lado oeste o Muro das Lamentações tendo acima a Mesquita de Al-Aqsa

Foto 3: Maquete do monte que abrigará a cidade de Jerusalém (Museu de Israel)

Foto 4: Maquete da cidade de Jerusalém. É possível verificar o gigantesco serviço de terraplanagem feito por Herodes (Museu de Israel)

Foto 5: Realizada a terraplanagem, a edificação do Santo dos Santos foi a primeira obra executada essencialmente por sacerdotes (Museu de Israel)

Foto 6: Maquete do Templo exposta no Museu do Livro Vista do Monte das Oliveiras, observa-se a esplanada do templo com todo o seu esplendor: Porta dourada, Porta Formosa, o Pórtico das Mulheres, o Santo dos Santos e o Pátio dos Gentios.

Foto 7: Parte do mercado herodiano, em Jerusalém. Resultado das atuais escavações

Foto 8: Mikveh (piscinas para banhos rituais) foram construídas, ao sul do Templo

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