Cesareia: uma cidade dedicada ao Imperador

“Herodes, tendo notado que havia ao longo do mar

 um lugar chamado de Torre de Estratão,  cuja situação era muito vantajosa,

 lá fez edificar uma cidade de uma forma

 e de uma beleza admiráveis...” (Flávio Josefo, A.J. 13,669)

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   Estar em Cesareia, dois mil anos depois da morte de Herodes, o Grande, ocorrida no ano 4 a.C., é ter a oportunidade de comprovar que o historiador judeu Flávio Josefo (37-100 d.C) não exagerou ao descrever que no lugar pairavam “forma e beleza admiráveis”. A grande iniciativa de Herodes foi a instalação de um porto artificial nesta costa oriental do Mediterrâneo, no desejo de incrementar a navegação comercial e bélica entre a Fenícia e o Egito.

    O local já era conhecido. Em meados do século IV, o rei fenício de Sidônio, considerando a topografia do local, chamou-a de Torre de Straton. Zenon, um funcionário egípcio, teria desembarcado no local para abastecimento, em 259 a.C. Antes de ser entregue aos cuidados de Herodes, por vontade do Imperador Augusto, sobrenome de Caio Júlio César Otaviano, no ano 30 a.C, a região foi controlada por Alexandre Janeu (103-76 a.C) e, a partir do ano 63 a.C, com a chegada do general Pompeu – o maior de todos os romanos – o local foi utilizado como sede do governo romano na província da Judeia.

   Num período de dozes anos (22 a 10 a.C), Herodes, sempre determinado em agradar e responder aos interesses do governo central romano, na qualidade de súdito fiel, inicia sua nova empreitada: a construção um porto artificial. O empreendimento, não só daria possibilidade dos navios atracarem em segurança, mas prestígio no circuito internacional aos planos de Herodes.

   

 

 

 

 

 

 

 

   Mas como edificar algo em águas e ventos inconstantes? A engenhosidade estará recorrer ao uso de um material, oriundo da região central da Itália, denominado Pozolana - pó formado de resíduos vulcânicos que em contato com a água petrifica-se. Grandes caixas são submergidas e uma vez compactadas e resistentes, lançam sobre elas as pedras para erigir os pisos e paredes. O dique levantado media cerca de 60 m de largura, sendo que a entrada do porto estava direcionada para o norte, de onde os ventos são mais moderados.

   Ainda sobre o governo de Herodes, foram edificados um santuário dedicado ao culto de Roma e de Augusto – realçava-se sobre o porto -, iniciado o anfiteatro, palácio real e banhos públicos. Um aqueduto, com extensão de 12 km, com arcos alcançando 6 m de altura e 5m de largura, abastecia a cidade com água capitada no Monte Carmelo. O Hipódromo, com extensão de 380 m por 80, com capacidade para mais de vinte mil expectadores, foi construído anos mais tarde. Calcula-se que em seus tempos áureos a cidade chegou a receber cinquenta mil habitantes.

 

 

 

 

   Cesareia é mencionada inúmeras vezes em textos do Novo Testamento. Surge como local de residência do diácono Filipe (At 8,40; 21,8-9). O episódio envolvendo Pedro e o centurião romano Cornélio (At 10-11), tem como cenário Cesareia. Quando Paulo, testemunha diante das autoridades romanas Feliz e Festo, recorre ao atributo de ser um cidadão romano e que a Roma irá na defesa de sua própria vida (At 23-25).  Nos séculos seguintes, como capital da província, Cesareia passa a sediar a escola de teologia, fundada por iniciativa de Origines, em meados de 231 d.C. Em 314, Eusébio se tornará bispo em Cesareia, mas antes, o rabino Rabi Akiva (50-135 d.C.) chefiará um importante centro de estudos mishinaicos. Nos séculos seguintes, nos períodos bizantinos (320-640) e cruzados (1102-1265) Cesareia receberá importantes traços arquitetônicos dessas culturas. A partir do ano 1265, conquistadores mamelucos destruíram completamente a cidade que ficou abandonada até o ano de 1950, quando arqueólogos redescobriram, removendo toneladas de areia, o esplendo arquitetônico inaugurado por Herodes, o Grande.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Autor: Antonio Carlos Frizzo,fez mestrado no Instituto Católico de Paris e doutorado pela PUC-Rio. Leciona teologia bíblica no ITESP, São Paulo e na Faculdade Católica de São José dos Campos. É assessor do Centro Bíblico Verbo e sacerdote na diocese de Guarulhos, S. Paulo. 

Foto: Inês Catapan

Inscrição que registra a historicidade de Pilatos que exerceu o poder entre os anos de 26 a 37 d.C. Pedra original exposta no Museu de Israel, Jerusalém, encontrada em Cesareia, nas escavações de 1950.

Sobre a pedra pode-se ler em latim:

[  ] s Tiberieum

[Po] ntius Pilatus

[Praef] ectus Iudae [a] e

[Ref] e [cit]

Reconstrução das antigas colunas em Cesareia

Foto: Rose Medeiros

Anfiteatro de Cesareia. Os alicerces e o piso são da época de Herodes, o Grande.

Foto: Rose Medeiros

Maquete da cidade de Cesareia em meados dos séculos III a IV d.C.

Foto:Rose Medeiros

Gigantescas estátuas ornavam ruas e o exterior do Anfiteatro de Cesareia.

Foto:Luiz Catapan

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