Análise Literária do Antigo Testamento
1 - Localização do texto em estudo
2 - Critica textual
3 - Delimitação do texto
4 - Composição e estruturação do texto
5 - Análise semântica: significado das palavras e frases
6 - Gênero literário
7 - Estudo da redação e tradição
8 - Significado do texto
Análise Literária do Antigo Testamento
A Bíblia nasceu aos poucos, no chão da vida de um povo que fez uma especial experiência de Deus presente nos acontecimentos de sua vida. O conteúdo de um texto bíblico, antes de ser escrito, foi vivido por pessoas concretas. Homens e mulheres de todas as idades e classes sociais. Gente que vivia nos campos e nas cidades, dentro e fora da Palestina. Esta diversidade de fatos e experiências foi contada, recontada e escrita, em meios populares e oficiais, tanto no Norte, como no Sul, formando as várias tradições. No decorrer da história essas tradições foram escritas e reelaboradas, agrupadas dentro de narrativas ou conjuntos maiores, ganhando um novo sentido, em resposta às novas necessidades até o texto chegar à sua redação final.
O papel da análise literária, uma das etapas da exegese, é estudar o texto como literatura. Para isso, o primeiro passo é examinar as traduções numa tentativa de aproximação do texto original. O passo seguinte é identificar a estrutura do texto, o estilo ou gênero literário, pesquisar o significado das palavras, das expressões e verificar o seu movimento interno. Este trabalho vai trazer à tona as tradições usadas pelos redatores e apontar o seu objetivo.
Em síntese, a análise literária procura responder as seguintes perguntas: existe coesão interna no texto? Qual o estilo ou gênero literário? Quais as palavras que aparecem no texto? Qual o significado delas? Qual é o movimento do texto? Onde e quem produziu o texto? Que grupo representava? Em que época e qual a finalidade de usar uma determinada expressão ou palavra? Para isso devemos considerar as circunstâncias em que o texto foi produzido, levantando questões como: Para que e para quem foi escrito? Em que gênero ou estilo foi escrito? Quais as fontes ou tradições usadas?
1 - Localização do texto em estudo
É necessário obter algumas informações gerais sobre o livro que contém o texto: quem, o que, para quem, quando e onde escreveu. Conhecer um pouco mais a história do livro, as suas possíveis tradições e redações até chegar à redação final. É importante adquirir uma visão geral do contexto sócio-histórico para localizar o livro no tempo e no espaço. Essas informações podem ser adquiridas através da leitura das notas introdutórias dos livros da Bíblia, nos livros da história e geografia de Israel e em leituras afins.
2 - Critica textual
Os textos bíblicos que temos são cópias de cópias muito antigas, transcritas à mão com uma série de modificações intencionais ou não. Ao compararmos essas cópias, constatamos que existem muitas diferenças chamadas de "variantes textuais". Essas diferenças aparecem nas traduções. Ao compararmos as Bíblias em português, notaremos que existem diferenças significativas. Isso normalmente depende da escolha das variantes textuais adotadas pelos tradutores. Algumas traduções da Bíblia indicam no rodapé as variantes adotadas. O trabalho da crítica textual é averiguar as variantes, fazendo uso de estudos científicos sobre o assunto, escolher as variantes que mais ajudam a recompor o texto original.
3 - Delimitação do texto
No momento da pré-exegese seguimos a delimitação proposta pelas edições usuais da Bíblia. No entanto, a análise literária pode confirmar a delimitação preexistente ou apresentar elementos para uma nova delimitação. Para estabelecer onde começa e onde termina o texto a ser estudado, é necessário identificar os seguintes elementos:
a) O texto em estudo tem começo, meio e fim? Ou seja, ele forma uma unidade em si mesmo, em torno de um conteúdo ou tema?
b) Há alguma fórmula ou expressão especial que faz a abertura e a conclusão do assunto tratado?
c) As personagens principais se mantêm até o fim?
d) Há mudança de tempo, de local, de modo verbal?
e) Como no Antigo Testamento é muito comum passar da narrativa para a poesia, verificar se o texto mantém coerência no estilo literário.
4 - Composição e estruturação do texto
Após determinar o início e o fim de um texto, podemos verificar se existem subdivisões e qual a sua estrutura interna. Dentro de um texto delimitado pode haver outras subdivisões formando duas ou mais perícopes.
Orientações para verificar a coesão e as subdivisões de um texto:
a) Ver a relação entre a introdução e a conclusão;
b) Observar as repetições de palavras, expressões e o uso de conjunções e de formas estabelecidas;
c) Reconhecer a permanência do mesmo assunto ou conteúdo e personagens centrais;
d) Identificar as subdivisões observando as mudanças de local, de tempo, de personagens, de modo verbal, etc.
O objetivo de averiguar a estrutura de um texto é tentar captar a intenção do seu redator final.
Sugestões para perceber a estrutura do texto:
a) Observar as frases de abertura;
b) Ver a alternância entre a narrativa e o discurso direto;
c) Localizar as mudanças de tema, de lugar e de tempo.
d) Verificar a saída ou entrada de personagens;
e) Estar atento para as repetições;
f) Identificar o tipo de estrutura do texto: paralelismo? Simetria, alfabética ou de quiasmo? Etc.
g) Representar graficamente a estrutura encontrada.
5 - Análise semântica: significado das palavras e frases
Os autores, ao escreverem um texto, seguem os valores socioculturais e lingüísticos de sua época. Eles utilizam palavras, frases, expressões e estruturam o texto conforme o contexto e seus objetivos (intenções) para atingir aos seus destinatários (interlocutores).
Passos para entender melhor o significado de palavras e frases:
a) Fazer um levantamento de palavras e expressões que marcam o desenrolar do texto.
b) Pesquisar, em dicionários bíblicos e concordâncias nas línguas originais, as passagens onde se encontra cada palavra ou expressão em estudo.
c) Situar o contexto onde ocorre a palavra ou a expressão analisada.
d) Enumerar os textos nos quais aparece a palavra conforme o gênero literário, o contexto histórico e o grupo sociopolítico.
e) Se no texto em estudo aparecem nomes de pessoas, localidades, datas, fazer uso de "ciências auxiliares" como a arqueologia, a lingüística, a literatura, a história, as ciências da religião, a biologia etc. Conferir as informações num bom dicionário bíblico.
f) Descobrir o sentido da palavra no conjunto do texto em estudo.
g) Denominar os vários significados da palavra analisada e escolher, em nossa própria língua, uma palavra com a mesma riqueza de características semânticas.
6 - Gênero literário
O estudo das palavras e expressões, a busca do seu sentido, aponta as tradições presentes no texto e o seu processo redacional. Esses passos aguçam a sensibilidade da pessoa que está pesquisando, levando-a a perceber o estilo ou o gênero literário no qual o texto foi cristalizado. Cada estilo ou gênero literário tem sua forma própria, por exemplo, a narrativa ou prosa é linear, é uma sucessão de fatos que vão sendo desenvolvidos para atingir o objetivo. A poesia, por sua vez, tem um movimento circular, analisa um mesmo momento sob diversos ângulos. É um contínuo vaivém dentro de um mesmo tema. No estudo do gênero literário, considerar a literatura extrabíblica.
7 - Estudo da redação e tradição
O texto bíblico é portador de memória oral e escrita, de experiências de pessoas e comunidades, tanto do mesmo lugar e período histórico como de lugares e épocas diferentes. O estudo da tradição busca verificar como se formou essa memória perguntando: qual o fato que deu origem à tradição presente no texto? Que pessoas ou grupos viveram esse fato ou experiência e em quais circunstâncias? Como experimentaram a presença de Deus? Que grupos foram portadores dessa tradição? Onde, quando, para quem, com que objetivo?
No decorrer da história de Israel, as diversas tradições foram lidas e relidas, escritas, recortadas e acrescidas por grupos populares, ou oficiais, até chegar a uma redação final. O estudo da redação dá uma especial ênfase à elaboração final do texto, buscando descobrir como os redatores receberam as diferentes tradições e a forma como as redigiram em resposta à realidade histórico-social e religiosa do momento.
Em síntese, a redação é uma leitura das tradições com as devidas adaptações para um determinado público, de acordo com as diferentes realidades. Por isso é preciso ter o cuidado de identificar, tanto quanto possível: Quais os termos, temas, teologias e estilo que caracterizam os redatores? Que tradições eles usaram? Qual o rosto ou a experiência de Deus que está presente no texto? Quem são seus possíveis destinatários? A quem ou a que tipo de comunidade interessa o que foi redigido?
No exercício concreto de exegese, a distinção de tradição e redação é um desafio, pois estes elementos estão muito interligados nos textos, uma vez que as tradições foram desenvolvidas e modificadas no processo de redação. Em outras palavras, os textos bíblicos trazem as marcas de sua história.
Portanto, identificar as tradições presentes num texto, bem como seu processo redacional, é um trabalho simultâneo que exige retomar as descobertas feitas na análise literária. Ou seja, o trabalho exegético é mais ou menos como guiar um carro: olhar para frente, mão no volante e atenção no retrovisor.
Apresentamos a seguir alguns passos que consideramos importantes no estudo da tradição e redação:
a) Ter presente que o estudo da tradição e da redação supõe conhecimento da história de Israel, das tradições, das teologias e das formas lingüísticas dos principais grupos de redação.
b) Não podemos nos esquecer que na Bíblia há muitas experiências enraizadas na tradição religiosa mesopotâmica, cananéia ou egípcia. Isso exige da pessoa que analisa um texto informações gerais das tradições dos países circunvizinhos.
c) Observar o vocabulário, o estilo, os temas, as imagens, o gênero literário, a estrutura do texto e as possíveis subdivisões internas (se houver) e as suas possíveis estruturas.
d) Perceber as interrupções e as tensões, como: as descontinuidades estilísticas e teológicas; as duplicações e repetições.
e) Observar nestas interrupções e tensões os elementos característicos do vocabulário e do estilo lingüístico, os temas e as teologias presentes. Procurar identificar o grupo de redatores que está por trás do texto, por exemplo: grupo profético, deuteronomista, sacerdotal, etc.
f) Levantar elementos explicativos em relação à história e à teologia. Observar os conceitos e as representações da realidade e da experiência cotidiana que emergem no texto, especialmente aqueles que se referem à imagem de Deus.
g) Procurar textos paralelos quanto ao tema e à estrutura. Verificar as diferenças, as abreviações, as ampliações e as omissões de determinados fatos, bem como o início e a conclusão de uma unidade, e a seqüência dos acontecimentos.
h) Identificar os interesses dos grupos ou círculos que transmitiram e redigiram as informações que estão no texto.
8 - Significado do texto
Se prestarmos atenção à nossa maneira de pensar, de ver o mundo, vamos perceber que tiramos conclusões a partir das ausências ou oposições. Para isso, indicamos alguns procedimentos:
a) Fazer uma lista detalhada das características semânticas das palavras ou expressões que aparecem no texto.
b) Agrupar as palavras e expressões afins. Observar as oposições que acontecem entre grupos de palavras e/ou expressões. Analisar a causa dessas oposições.
c) Listar os verbos de movimento, por exemplo: sair, ir, seguir, levantar.
d) Colocar num único bloco os vocábulos ou expressões de significados afins e os verbos que indicam movimento. Esse grupo forma um eixo semântico ou, melhor dizendo, um "fio condutor".
Um único texto pode apresentar vários temas significativos. Para evitar o risco de se perder em sentidos secundários, recomenda-se priorizar um tema para aprofundar a pesquisa, sem ignorar as múltiplas possibilidades que o texto oferece – ou seja, nenhuma pesquisa esgota a descoberta de sentidos de um texto.
Atenção: às vezes uma expressão pode aparecer uma única vez e, no entanto, ser determinante para a compreensão do sentido do texto.