Leituras e Resenhas
SCHIAVO, Luís; SILVA, Valmor da. Jesus, milagreiro e exorcista. São Paulo: Paulinas, 2000. 128p.
Um livro para ler, saborear e ampliar a compreensão sobre a identidade de Jesus. Os autores são professores da Universidade Católica de Goiás. Esta obra é fruto do desejo de partilhar o conteúdo da dissertação de mestrado de Luís Schiavo, por meio de uma linguagem simples e acessível a um público maior. A idéia inicial era um subsídio para o décimo segundo Curso de Verão de Goiânia (GO), realizado em janeiro de 2001. Porém, o estudo realizado mereceu uma divulgação mais ampla. O livro foi muito bem aceito e já está na segunda edição.
Nas páginas iniciais encontramos uma apresentação dos diversos rostos de Jesus ao longo dos livros da Bíblia, especialmente do Novo Testamento, olhando a história dentro e fora da religião. Os autores concluem que as definições acerca de Jesus são muitas, porém é impossível prendê-lo num esquema absoluto. Desde as primeiras comunidades cristãs até as pessoas de hoje, permanece a lembrança de um Jesus que cura e liberta as pessoas. No decorrer do livro, os autores ajudam as leitoras e os leitores a melhor compreenderem a atividade curadora de Jesus.
O livro apresenta o contexto histórico-político do tempo de Jesus. Aborda, de maneira cuidadosa, a dominação do império romano e suas conseqüências. A paz romana foi imposta pela força das armas. O império romano criou inúmeras taxas e impostos. Para os judeus, a situação de exploração era mais crítica, pois havia também a estrutura da religião judaica que impunha diversos tributos religiosos. A dominação política e religiosa acelerou o empobrecimento, especialmente das aldeias e dos vilarejos que sustentavam as cidades. Essa situação provocou o surgimento de vários movimentos de resistência e revoltas populares.
Os autores mostram como o império romano e a sinagoga tratavam os pobres. No Império não havia preocupação com os pobres. Para acalmá-los e impedir que se revoltassem, havia o sistema do clientelismo. Era questão de status uma pessoa de estrato superior ajudar alguém de condição inferior. A pessoa ajudada tinha obrigação de manter lealdade para com o seu patrono. Na comunidade judaica havia a preocupação em ajudar as pessoas pobres, porém mantendo-as separadas, pois eram vistas como pessoas impuras. Jesus rompe com as leis da pureza e inclui a todas e todos. As comunidades cristãs incluem os pobres e os pequenos.
Jesus dedica aos pobres grande parte de sua vida. As pessoas o procuram como alguém que tinha poder sobre as doenças. Na época a prática de curas e exorcismos era comum. Como os recursos econômicos eram poucos, as pessoas buscavam mágicos, curandeiros e exorcistas. Jesus respondeu também a essa perspectiva: um profeta popular, milagreiro e exorcista que agiu em favor da vida das pessoas mais pobres e oprimidas.
A prática milagreira de Jesus constituiu-se mais tarde em uma das acusações que lhe foram dirigidas no processo de sua morte. Diante da prática médica e política do tempo de Jesus, as curas e a magia eram consideradas como movimento de resistência popular. Jesus foi considerado profeta, sábio, mago, filho de Deus. Ele pregou em vilarejos do interior. O movimento de Jesus começou na Galiléia. Ele formou um grupo de missionários itinerantes que ia de aldeia em aldeia, sem residência fixa.
Finalizando, o livro apresenta a proposta de Jesus: "uma renovação da sociedade e da história a partir de baixo, dos pobres e excluídos/as". Ele recusou a proposta de ser rei, rejeitou toda forma de violência e entrou em conflito com o sistema do templo e com a idéia tradicional de um messias salvador da pátria, para assumir a de servo sofredor. Jesus, em sua prática, valorizou as pessoas pobres e excluídas, colocou no centro de sua missão as crianças, as mulheres, os doentes, os possessos, os publicanos e os pecadores. E os autores concluem com uma pergunta: "Com uma prática e uma proposta dessas, era de se esperar outro fim? Não por pouco Jesus foi torturado e condenado à morte" (p.111).
O livro traz dois apêndices. O primeiro é um panorama do império romano e dos movimentos populares. São informações simples e precisas. E o segundo, uma lista das narrativas de milagres de Jesus nos quatro evangelhos. A partir desta lista você é convidado/a a confirmar as informações contidas no livro e ampliar a sua reflexão.
Maria Antônia Marques
cbiblicoverbo@uol.com.br
José BORTOLINI. Conhecer e rezar os Salmos: comentário popular para nossos dias. São Paulo: Paulus, 2000.624p.
Este livro oferece aos seus leitores e leitoras uma aproximação dos salmos, fonte perene de águas cristalinas. Para que possamos nos sentir em casa com os salmos, o autor procura reconstruir o chão em que nasceu cada uma dessas orações, como se os salmos tivessem sido escritos para nós.
Abrindo as portas para entrar na casa dos salmos, deparamo-nos com algumas considerações iniciais sobre este livro. Os salmos têm origem em ambiente judaico, são frutos da espiritualidade judaica e sua língua original é o hebraico, embora já façam parte do patrimônio de todas as pessoas que acreditam na vida e na justiça.
Os salmos nasceram ao longo de seiscentos anos e, antes de aparecerem por escrito, foram vividos, rezados e transmitidos de geração em geração, por isso é quase impossível saber, com precisão, quando surgiu um determinado salmo. Para o autor, mais do que tentar definir a época em que nasceu o salmo, o importante é explorar bem o texto, a fim de que o mesmo possa oferecer o maior número possível de informações sobre a situação vivida por quem o criou.
Os salmos foram escritos pelo povo, a partir de suas lutas e vitórias, sonhos e esperanças, alegrias e dores, certezas e buscas. Conhecer o contexto que há por trás de cada salmo é essencial para descobrir o seu sentido. O livro de Bortolini procura situar o leitor dentro da casa dos salmos, mostrando os vários cômodos: são 150 Salmos e podem ser agrupados em cinco famílias, a saber: Hinos, Salmos individuais, Salmos coletivos, Salmos reais ou régios e Salmos didáticos. Em cada família há vários filhos, totalizando 14 diferentes tipos de salmos.
A chave para entrar nessa casa é a do conflito. Veja bem: 57 salmos (as súplicas coletivas ou individuais) são clamores contra a situação de injustiça. Os salmos de ação de graças, ao todo 17, nasceram da superação do conflito. Portanto, 50% do livro! Ler e rezar os salmos de maneira criativa exige a percepção da tensão que existe no contexto, no nível social e das relações injustas, marcadas pela opressão, exploração e outras.
O objetivo deste livro é, antes de tudo, relacionar os salmos com a vida das pessoas de hoje e "estabelecer ponte comum entre o ontem e o hoje, de modo que cada salmo possa falar ao coração dos homens e mulheres de hoje". É uma reflexão a partir dos problemas que angustiam o povo de Deus hoje: a luta pela terra, ecologia, ecumenismo, cidadania etc.
Para o estudo de cada um dos salmos, o autor apresenta os seguintes passos:
- Apresenta o texto do salmo e procura classificá-lo conforme a família e o tipo a que pertence.
- Indica a estrutura e organização do texto, procurando salientar as principais imagens criadas pelo salmista para exprimir o que sentia.
- Extrai, a partir do salmo, as informações sobre o que estava acontecendo e por que brotou esta oração. Tenta evidenciar qual o conflito, com quem e qual o motivo.
- A partir do conflito, levanta alguns traços do rosto de Deus presente no salmo, deixando claro de que lado Deus está. E mais ainda. Aponta para o Novo Testamento, para ver como os conteúdos do salmo ecoam na pessoa e nas ações de Jesus, se ele as realiza ou se lhes dá novas perspectivas.
- Após ter estudado o salmo, o autor mostra como o salmo fala à nossa vida hoje e propõe que cada pessoa crie o seu próprio salmo.
Esta obra é indicada para todas as pessoas que gostam de estudar e rezar os salmos, especialmente aquelas que estão ligadas a atividades litúrgicas e reflexões bíblicas. A linguagem é fluente e acessível, capaz de embalar o leitor ou leitora. A preocupação deste estudo não é a problemática sobre o texto e as possíveis formas de traduzi-lo; é um comentário popular, com preciosas informações sobre cada salmo para nos ajudar a redescobrir o seu sentido hoje. Vale a pena conferir, beber destas águas cristalinas e sentir-se em casa com aqueles e aquelas que criaram os salmos.
Maria Antônia Marques
Equipe do Centro Bíblico Verbo
Rua Verbo Divino, 993
047190-001 – São Paulo/SP
e-mail: cbiblicoverbo@uol.com.br
site: www.cbiblicoverbo.com.br
Domingos Sávio da Silva. Habacuc e a resistência dos pobres: tradução crítica do profeta Habacuc. Aparecida: Editora Santuário, 1999. 344 p.
Habacuc e a resistência dos pobres: tradução crítica do profeta Habacuc é a tese, na íntegra, de doutorado de Domingos Sávio da Silva, apresentada na Faculdade Metodista, São Paulo, no ano 1997. O livro é constituído de duas grandes partes, mais introdução e conclusão. A primeira parte, denominada "Auto-apresentação do texto", consta de seis capítulos. A segunda parte, com três capítulos, descreve "A realidade que se reflete no texto".
Na primeira parte encontra-se a tradução do texto massorético do livro de Habacuc com uma vasta crítica textual (p. 17 a 172). No trabalho de tradução, o autor persegue o princípio de "maior fidelidade possível ao texto massorético" (p. 26; 71; 99; 139; 146; 158; 161). O autor chega a dizer que contempla a "louvável intangibilidade do texto massorético" (p. 160).
Como toda tradução, em si, é uma interpretação (cf. p. 296), o autor não foge à regra, inclusive pelo princípio adotado de seguir fielmente o texto massorético. A guisa de exemplo, podemos citar: "Quanto ao v.3ab, vejo uma lógica possível para a mudança que nele se propõe: contemplo. Se Javé me faz ver, eu contemplo! No entanto, opto pelo texto massorético, vendo em ambas as suas formas verbais o mesmo sujeito Javé (‘Por que me fazes ver iniqüidade, e malignidade contemplas? ’, v.3a), por sentir nele uma forte densidade de ação. Sim, o profeta vê como que coagido; Javé, por insensibilidade! E, além do mais, em sua versão massorética, o texto apresenta-se como plenamente compreensível e razoável. Descarta-se, então, por si mesma, a necessidade da mudança proposta. E, assiste-me, por outro lado, o já explicitado princípio, bem pessoal, de fazer o possível para não tocar uma vez mais no já tocado e retocado texto massorético" (p. 31).
De posse da tradução, Sávio da Silva passa para uma segunda parte do trabalho, em busca de resposta às seguintes questões: De que situação histórica o texto de Habacuc se faz reflexo? Qual o panorama internacional, sobretudo no tocante às nações que mais influíam nos destinos do povo eleito, e, no interior deste, que diziam respeito ao grupo diretamente implicado na profecia em questão? Que problema se vivia? Como o profeta o interpretava? Propôs alguma solução? (cf. p. 15; 173-174).
Essas questões são respondidas pela análise semântica da palavra hamaç-violência (p.192-200). Especialmente nos capítulos 1 e 2 do livro de Habacuc, onde o termo ocorre seis vezes (1,2ba. 3ba. 9; 2,8.17 [bis]), Sávio da Silva detecta a situação de opressão e violência que caracterizou a vida do povo no tempo do reinado de Joaquim (608-598 a.C., cf. p.177). O grupo social, personificado por Habacuc, que denuncia tal situação de opressão, seria, conforme a pesquisa de Sávio da Silva, o grupo dos levitas empobrecidos que fizeram opção pelos justos oprimidos (p. 215).
A seguir o autor apresenta o estudo do capítulo 3 do livro de Habacuc, no qual se pode observar uma linguagem cúltica, bem como o termo "ungido" (v.13). Estes dois elementos, objeto de discussões de especialistas no assunto, nos apontam a ideologia da monarquia, que não condiz com o texto dos capítulos 1 e 2 de Habacuc. Por isso, o capítulo 3 de Habacuc é considerado por muitos professores como uma adição posterior ao livro. Sávio da Silva apresenta o capítulo 3 como parte integrante do conjunto da obra de Habacuc e dedica as páginas 217 a 287 de seu livro a esta questão.
Seus principais argumentos são:
A linguagem cúltica provém dos levitas empobrecidos que fizeram opção pelos oprimidos, os justos que sofrem hamaç-violência (p. 209-216; 243-258).
Quanto ao termo "ungido", esse verbete não se refere ao rei, mas ao injustiçado que luta contra os ímpios (p. 259-287).
Nessa tese Habacuc é apresentado como um profeta com posições sociopolítico-religiosas muito bem definidas. Segundo o autor, Habacuc não aceitava que a intervenção militar estrangeira fosse um castigo divino para o povo eleito. "Habacuc recusa irrestrita e incondicionalmente todo intervencionismo estrangeiro armado, que se arvore em instrumento estratégico de que Deus se serviria para implantar sua justiça punitivo-educativa no seio de seu povo eleito” (p. 240). Deus jamais iria usar de violência para corrigir seu povo, pois violência atrai violência. Por outro lado, o profeta Habacuc descarta a hipótese da mediação histórico-salvífica da monarquia (p.268-269). "Ele possui uma proposta para o impasse de seu tempo no próprio povo marginalizado, no justo-saddiq, identificado no conjunto da profecia, como ‘ani-miserável ou pobre” (p.269). Para Habacuc é o próprio pobre que tem o potencial coletivo de manifestar o poder salvífico de Javé. "Suas armas na luta pela reversão dos rumos da história viriam da coesão, da solidariedade entre os oprimidos, do crer um no outro, em si mesmo e no próprio grupo, e nessa força potente que daí advém" (p.309).
O livro de Domingos Sávio da Silva é uma obra útil para alunos e alunas de pós-graduação em Bíblia, como exercício de exegese, especialmente no que se refere à crítica textual – contribuição especial desse trabalho. Para especialistas na área, é uma leitura alternativa do livro do profeta Habacuc e uma contribuição para a pesquisa do assunto em questão.
Shigeyuki Nakanose
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