Hermenêutica
Feminista uma leitura
Entre olhares heróicos e
eróticos
de identidades e narrativas das mulheres na América Latina
A paisagem étnica e cultural da América Latina permite ver uma heterogeneidade de sujeitos que não
se encaixam facilmente com o conceito ou compreensão de "latino". As
populações de características autóctones, em países como o Brasil, o Perú, a
Bolívia ou o México são, quase sempre, percebidas como algo exótico ou às quais se
associa uma condição de subdesenvolvimento crônico, sendo relegadas a uma cidadania de
segunda, senão terceira, classe2.
A não aceitação deste
olhar sobre a América Latina e a indignação contra este tipo de tratamento é
uma das motivações, para lutas de resistência e libertação que cortam a história do
continente até os dias de hoje.
Se faz cada vez mais
urgente e necessário - nestes tempos cada vez mais globais criticar conceitos e
imagens de uma identidade latino-americana forjada a partir de olhares exóticos,
complacentes e reducionistas e prosseguir nesta tarefa identitária, sem a
subalternização, porém, das coisas e dos valores autóctones.
Não existe mulher latino-americana. Mulher
na América Latina? Somos muitas. Somos todas. O limite geográfico não pode disfarçar a
explosão de possibilidades. Contraditórias e incontáveis: somos muita coisa ao mesmo
tempo. Já não há uma fala sossegada e redutora sobre nós. Negras, de todas as cores de
todas as Áfricas. Indígenas, de tantas Américas inventadas e divididas. Latinas.
Ibero-latinas de restos e expansões de um Portugal e Espanha que não existem mais.
Falamos mil e tantas línguas diferentes. Nascemos herdeiras da invasão que nos deixou
pra sempre irreconciliáveis. Vivemos às custas de modelos econômicos que nos igualam em
desigualdades monstruosas e diferenças repetidíssimas. Crescemos à sombra do Equador
como se, destino e sorte, fossem as linhas que nos amarram ao sul.
Então, qualquer tentativa de dizer de um
jeito só é traição. Molhadas do Atlântico e do Pacífico, algumas de nós são
úmidas de Caribe. Florestas agonizam e alimentam algumas de nós, enquanto outras se
encostam na sombra de vulcões sonâmbulos ou de cidades inviáveis.
Temos a idade de todas as idades. Somos da
classe de todas as classes. Das etnias. Das preferências. Mães de santo. Benzedeiras.
Missionárias. Visionárias. Ciganas. Pastoras e freiras. E todas as outras que assistem e
dizem amém!
De qual mulher latino-americana era pra
ser? Somos todas. Somos muitas.
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2- Simplesmente Maria
a mulher latino-americana nas telenovelas
Um fenômeno de
comunicação e mídia corta o continente: as telenovelas. Exatamente agora no Brasil, é
possível assistir novelas às 15 horas, às 18, às 19, às 21 e às 22h30. Os índices
de audiência são os mais altos, com público majoritariamente feminino. Estas
telenovelas brasileiras e outras do mesmo gênero produzidas na Venezuela ou no México,
são assistidas por um público de fora da América Latina cada vez maior. As telenovelas
são artigos de exportação.
Uma das possibilidade de
compreender o que seria a mulher latino-americana seria a de perguntar pelo imaginário
feminino que de modo sistemático e insistente está presente nos enredos das telenovelas.
O que as mulheres assistem? Como as mulheres são representadas? Como se olham as mulheres
que são olhadas? Que modelos de identidade das mulheres latino-americanas são
disponibilizados?
A partir das pressões dos
anos 60 e 70 que marcou o continente com ditaduras militares e suspensão de
direitos políticos, e com a repressão e censura de formas culturais populares,
partidárias e alternativas- a televisão e a parcela das elites nacionais que receberam
as concessões de canais por parte dos governos autoritários e/ou militares passaram a incorporar demandas emergentes3 na sociedade formatando-as a partir
dos repertórios nacionais e do imaginário local, projetando uma visão hegemônica
sobre/para/e a partir das sociedades latino-americanas4.
A televisão passa a ser
uma unanimidade na vida de diferentes segmentos sociais: mesmo com programação
segmentada para atender a todas as classes, as telenovelas passaram a ser uma crônica
social absorvendo, re-criando e devolvendo na forma da dramaturgia, o imaginário social e
cultural de parcelas significativas das populações latino-americanas.
Mesmo reconhecendo o
caráter técnico criativo e a fabulosa aceitação e audiência desse gênero
também mundo a fora! se faz necessário identificar os motivos, os
comprometimentos, as identidades representadas como um olhar das elites nacionais sobre o
conjunto da sociedade. Isto é, como as elites brasileiras vêm o povo vendo a ele mesmo.
De modo especial, as
novelas são uma atração de mulheres para mulheres, aliando mecanismos de controle via
consumo e imaginário. Nas novelas latino-americanas (brasileiras, mexicanas, venezuelanas
e até mesmo em programas norte-americanos voltados para a comunidade latina) as mulheres
assumem algumas características básicas organizadas a partir de binários fixos: as
belas e as feias, as boas e as más, as tímidas e as exuberantes.
As mulheres pobres se casam
com homens ricos. O amor vence a barreira das classes sociais. O amor é o destino e
profissão. A feia e tímida pode se transformar numa linda mulher. A maternidade é lugar
de aflição e renúncia. A ascensão ao poder significa solidão. A sedução ainda é a
melhor forma de conseguir o que se quer. As simples e humildes são recompensadas nos
capítulos finais e açucarados. As mulheres poderosas e más são responsáveis pelos
erros de filhos e maridos. As mulheres negras são empregadas ou representantes do
dionisíaco.
Uma crítica cuidadosa sabe
reconhecer que estas telenovelas lidam com enredos e repertórios que cruzam o dia-a-dia
das muitas mulheres latino-americanas expressando desejos e utopias. Assim, a negação e
crítica das telenovelas por si só não enfrentam os conflitos e dramas reais que se
oferecem como meta-narrativa acessível e eficiente. O controle dos meios de comunicação
de massa pelos interesses das elites nacionais inviabiliza formas criativas e operantes de
des-construção e projeção de enredos e narrativas alternativas por parte dos
movimentos de mulheres e feministas.
As revistas, as produções
culturais e os espaços deste movimento de mulheres são insuficientes e com muita
dificuldade podem contrapor e disponibilizar imagens e alternativas para os olhares das
mulheres vistas nas telenovelas. Os objetivos de recuperar, re-criar e produzir cultura a
partir dos enredos e repertórios das mulheres gerando, ao mesmo tempo, autonomia e
crítica por parte das mulheres se restringem a grupos reduzidos e frágeis. Esses grupos
precisam superar as ausências técnicas e teóricas com muita criatividade, trabalho de
base e socialização de recursos como por exemplo os projetos de produção e
execução de rádios comunitárias a partir da capacitação de mulheres nas comunidades.
Entre um e outro espaço, o
trabalho de leitura popular e feminista da Bíblia tem sido um espaço possível de
crítica e re-criação de enredos e repertórios. A força da religião e do imaginário
religioso no continente latino-americano (com toda sua complexidade e pluralidade) faz
desse espaço um lugar privilegiado para o enfrentamento de conteúdos e relações de
alienação das mulheres.
As narrativas bíblicas
libertadas de seus conteúdos e práticas autoritárias e dogmáticas
reúnem um número cada vez maior de mulheres, que se apropriam de enredos e repertórios
consagrados, re-inventando e re-significando personagens, relações, conflitos e tramas.
Neste sentido, a teologia feminista latino-americana, em especial no trabalho de
hermenêutica bíblica tem diante de si o desafio e a oportunidade de somar esforços na
construção de espaços de crítica, superação e criação das representações do
imaginário das e paras as mulheres.
A primeira emoção
necessária é a de perder: desistir da identidade como conceito, desistir da experiência
como redução, desistir do discurso como extensão, desistir do sistema como pretensão
para fazer dos grupos e encontros de teologia e Bíblia espaço onde as mulheres podem
suspeitar, des-construir e re-criar enredos, novelas, tramas, dramas, romances... e
assumirem seus olhares e discursos. Somente o vínculo e a cumplicidade deste espaço
teológico com a agenda e as lutas dos movimentos de mulheres e feministas é que pode
projetar estas leituras e re-leituras com o real empoderamento das mulheres diante do
todo-poderoso e oni-presente sistema de mídia, em especial das telenovelas.
Assim, pelo continente a
fora, mulheres se reúnem em salões paroquiais, escolas, salões comunitários, pátios,
casas, acampamentos de sem-terra, cortiços, na rua, na selva... aonde for e, naquela
noite ou num final de semana longe das telenovelas elas se fazem rainhas, guerreiras,
sofridas e gloriosas, mentirosas e verdadeiras, mães ou putas. A palavra de Deus não
está no texto... mas na palavra da mulher que levanta os olhos e re-escreve seu papel na
história.
3- Um ensaio para
cativar os olhos de todos os homens: Judite
A novela de Judite se situa
num cen ário de conflito internacional5. Como outras novelas bíblicas (Ester,
Susana, Rute), o livro de Judite trabalha com um enredo fantástico mantendo as
referências aos conflitos concretos da dominação imperial. Aqui interessa conhecer a
estratégia de Judite no enfrentamento com Holofernes, representação de todo o poder
imperial de alcance vastíssimo e perverso.
Depois de sete cap ítulos
de apresentação dos conflitos, o cerco militar, a sede e a total depauperação das
condições de vida, o texto conclui com a incapacidade das lideranças dos judeus em
apresentar qualquer forma de reação. Então aparece Judite (Judite 8,4). O texto
apresenta uma bela mulher, encantadora aos olhos e virtuosa, qualidades que compartilha
com Rute e Ester.
A transforma ção se dá a
partir do capítulo 10. Logo depois de uma oração fervorosa e de súplica (Judite 10, 2
a 4): a mulher se levanta. Troca de roupa, ela também camaleoa: de viúva a guerreira
sedutora. Um banho. Perfume. Muito perfume. O cabelo penteado e enfeitado com um diadema.
Vestido de festa, um que era de quando o marido vivia. Agora vestido de guerra. E nos pés
uma estonteante sandália. Colares e pulseiras. Tudo que tem direito: brincos e anéis.
Enfeitou-se. Valorizou
ainda mais a beleza que j á tinha. Queria os olhos de todos os homens. Queria ser vista e
desejada: Quando a viram com o rosto transformado e as vestes mudadas, admiraram-se
muito de sua beleza...(Judite 10,7). Ao prepará-la com cuidado e esmero para este
encontro, o texto identifica Judite como senhora de sua beleza. Ela sabe do que é capaz.
Ela domina as possibilidades de seu corpo e desafia os limites e os perigos com a destreza
de uma mulher que sabe desejar. Ela sabe o impacto que quer causar nos inimigos (Judite
10,19).
A chave para entrar no
acampamento inimigo é a beleza, é o corpo transfigurado de uma mulher que aparentemente
quer salvar sua pele numa situação de calamidade. Este é o desejo que Holofernes
reconhece em Judite. Ele não sabe que ela pode desejar mais. Judite fala. Articula um
discurso convincente que, aliado à sua beleza, garante uma estadia segura no acampamento
inimigo.
Judite se faz ser desejada
e esperada. Ela joga o jogo com suas vestes e seus adornos femininos (12,15).
Holofernes sente-se arrebatado pela mulher vestida de mulher que se recosta diante dele
(12,16). O texto começa a derrotar o homem dizendo de sua condição: dominado pelo
desejo de possuir a mulher. Convida à bebida e à alegria procurando um jeito de
seduzi-la. De novo o vinho que deixa o homem amortecido (12,20).
Neste exato momento, quando
Judite é deixada a sós com Holofernes, ela se transforma de novo: de mulher vestida de
mulher para o olhar do homem, ela se levanta guerreira e corta a cabeça de Holofernes e
conclui seu plano: a cabeça numa cesta, o caminho para fora do acampamento, a volta para
sua cidade. A partir daí a história se desenvolve rapidamente com o levante dos judeus e
o desbaratamento do acampamento inimigo. Quando a vitória dos judeus chega o texto canta
o protagonismo guerreiro de Judite (Judite 16, 6 a 8). A partir desse momento a novela
passa para resolução de conflitos internos da própria comunidade judaica6 (Judite 16ss). No final, Judite volta para suas vestes de viúva e o texto informa que nenhum
homem a conheceu (Judite 16,21).
Judite pode ser o que
quiser. Ela é muita coisa ao mesmo tempo. Entende de desejos e de olhares. Conhece os
poderes dos tecidos e suas texturas, sabe da vertigem que habita as sandálias e as
pulseiras. Conhece seu corpo e se veste de seu contrário.
Resguardada pelas ora ções
e as piedades, Judite exercita todo um arsenal erótico de sedução. Justificada pelo
objetivo de defesa da vida do povo, ela desafia os limites da virtuosidade, da traição e
do perigo. No golpe decisivo que cortou a cabeça de Holofernes, as pulseiras tilintaram
de poder, e o brilho do diadema soltou faíscas que incendiaram o corpo da mulher
guerreira. Vestida para matar.
Assim é Judite: linda e
soberana. Gloriosa. A pergunta pelas situações de sedução e erotismo nas historietas e
novelas bíblicas - uma das dinâmicas que estruturam os enredos apresenta uma
situação ao mesmo tempo desconcertante e fascinante: são mulheres que se empoderaram
(do exercício do poder) ao levar ao limite o papel conferido pelas relações sociais de
gênero. Era para ser olhada e desejada e, assim, submetida. Ela tensiona ao máximo as
possibilidades formatadas, reverte os conteúdos e impõe seu desejo: Terra. Integridade.
Paz.
O que justifica os
comportamentos sedutores e guerreiros das mulheres das novelas b íblicas é a
intencionalidade maior com que o texto re-veste seus gestos e ações: elas agem em nome
do coletivo, da preservação da comunidade. Incomoda a insistência dos textos em
apresentar este modelo da política de olhos pintados como modelo consagrado e aprovado.
Incomoda o fato dessas heroínas não terem o momento de gozar só por prazer no contato
com a água, o perfume, os tecidos e as coisas que brilham.
Pra quem l ê o texto a
partir das realidades vividas pelas mulheres latino-americanas, as novelas bíblicas se
mostram como um espaço privilegiado de diálogo com situações de limite, de desafio de
convenções, de marginalidade e alternativas contraditórias. No caso do livro de Judite
a alternativa inclui o uso da violência como uma das possibilidades de ação.
Enquanto as novelas
brasileiras, mexicanas, venezuelanas e que tais insistem em apresentar hero ínas belas e
puras como modelos contrários das belas e malvadas, reforçando esquemas morais que
aprisionam as mulheres ao desejo masculino que aprisiona, as novelas bíblicas, com todas
as contradições, apresentam mulheres-camaleoas. Mulheres que podem ser o que quiser, em
sabedoras do seu desejo de vida e portadoras do gesto eroticamente humano.
4- Das possibilidades e dos limites
A história
latino-americana tem sido marcada por ações organizadas de resistência contra os
modelos políticos e econômicos impostos. Tal resistência tem se expressado de diversas
formas, entre elas a resistência armada tem sido uma das possibilidades que ainda hoje
corta o continente. Articulando utopias e modelos de intervenção política autóctones
com elementos de resistência e organização da luta em nível internacional, as ações
e organizações de resistência têm sido marcadamente experiências masculinas mas que,
em nenhum momento excluem a participação ativa das mulheres.
Hoje em dia é possível
apontar para vários movimentos de resistência que optam pela via do confronto armado que
organizam um número significativo de mulheres: as FARCs na Colômbia e EZLN no México.
Mesmo reconhecendo as diferenças entre os dois movimentos, temos que admitir que cerca de
40% de seus militantes são mulheres. No Movimento Sem-Terra do Brasil as mulheres estão
presentes em todos os níveis da organização em número também significativo.
Pressionadas por modelos de
milit ância eminentemente masculinos (os exércitos, as frentes populares, as brigadas, os
partidos, os sindicatos etc.), a mulher latino-americana é também a donzela-guerreira7.
Tais experiências e possibilidades não são veiculadas pelas mídias, muito menos pelo
fenômeno das telenovelas.
Neste contexto parece ser
inadi ável que a teologia feminista participe dessa tarefa de múltiplas urgências:
criticar a hegemonia da mídia televisiva na veiculação de identidades alienadas e
submissas para as mulheres participando da disponibilização de novos roteiros e
protagonistas que correpondam às muitas identidades possíveis; criticar a idealização
da resistência política das mulheres latino-americanas a partir do papel consagrado da
líder comunitária que amplia suas tarefas domésticas: educação popular, saúde, horta
comunitária, cooperativas de produção etc. ideal disponibilizado principalmente
no âmbito das igrejas e da solidariedade internacional e enfrentar e participar
das discussões e práticas de militância política de muitas mulheres latino-americanas
em modelos de organização que ainda não incorporaram suficientemente a crítica
feminista como elemento vital da construção de alternativas libertadoras em todos os
sentidos. Deus conosco.
Nancy Cardoso Pereira
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