Pontuando e aprofundando
O ESPÍRITO SANTO
Na festa de Pentecostes, vivida pelas comunidades dos Atos dos Apóstolos, cada povo preserva a sua cultura e descobre o seu jeito de seguir a prática de Jesus, de conviver no meio dos pobres e oprimidos, vencendo as barreiras que impedem a convivência entre as pessoas. Na convivência solidária e na superação das barreiras entre mulheres e homens de diferentes classes sociais, de vários grupos étnicos, de religião, a comunidade vive a experiência da presença do Espírito Santo.
Mas o que é o Espírito Santo?
A palavra Espírito, em hebraico ruah, aparece muitas vezes no Antigo Testamento. No Gênesis pode ser traduzida por sopro ou vento, que possui a força criadora: “A terra estava sem forma e vazia; as trevas cobriam o abismo e um vento impetuoso soprava sobre as águas” (Gn 1,2; cf. Sl 33,6; Jó 33,4). E o sopro de Javé tanto possui uma força criadora, como também destruidora: ”ele matará o ímpio com o sopro de seus lábios” (Is 11,4 cf. Ex 15,8; 2Sm 22,9; Jó 4,9).
Em todas as etapas da história do povo de Deus, o Espírito se fez presente, eis alguns momentos importantes:
- Na criação (Gn 1,2; 2,7);
- Na formação e organização do povo (Jz 3,10;11,29).
- No período dos juízes e da monarquia, o Espírito era dado aos juízes, reis (1Sm 11,6), especialmente o rei messiânico (Is 11,2) e profetas.
- No exílio e no pós-exílio o povo sente a presença do Espírito de Deus dando vida nova, ajudando a refazer as esperanças (Nm 11,17; 2Sm 23,2; Mq 3,8; Zc 7,12; Ez 37,10-14).
- No pós-exílio o Espírito não era só para as pessoas que tinham algum cargo especial, mas derramado sobre todo o povo (Jl 3,1-2;Is 59,2; Zc 12,10).
Veja que interessante! No Antigo Testamento, a presença do Espírito de Deus tem a função de criar, animar, discernir, profetizar, ressuscitar, libertar e recriar. E estas também são as funções do Espírito no Novo Testamento. O Espírito continua vivo e atuante na vida de Jesus e das comunidades.
E Deus age por meio de pessoas concretas. Jesus, com sua maneira de ser e de agir, cria um novo modo de viver. Ele cria novas esperanças de vida para as pessoas, possibilita à pessoa a volta à comunidade; toca o impuro. “Jesus foi aonde ela estava, segurou sua mão e ajudou-a a se levantar” (Mc 1,31). Ele rompe a barreira do isolamento social imposto pela lei do puro e impuro, cria a lei do amor e da solidariedade. Faz a pessoa reviver (Mc 2,5)
A ação de Jesus vai além... ele organiza a comunidade. Na multiplicação dos pães “Jesus mandou que todos se sentassem na grama verde, formando grupos de cem e de cinqüenta pessoas. Depois Jesus pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu, pronunciou a bênção, partiu os pães e ia dando aos discípulos para que os distribuíssem. Dividiu entre todos também os dois peixes. Todos comeram e ficaram satisfeitos... ” (Mc 6,39-42). Na festa da vida todos podem participar.
Jesus, em seu ministério, criou novos espaços para a pessoa viver, restituiu a vida pelo perdão e organizou a partilha. Ele recriou a vida na liberdade (Mc 5,8). Esse modo de agir sem dúvida era inspirado pelo Espírito. O que mais tarde levou os cristãos a dizerem: “Tão humano assim, só Deus”. Seu programa de vida foi evangelizar os pobres, proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista, restituir a liberdade aos oprimidos e proclamar um ano de graça do Senhor (cf. Lc 4,18).
Os seguidores e seguidoras de Jesus, guiados pelo Espírito, percorreram o caminho trilhado pelo Mestre. As primeiras comunidades criam novo espaço para as pessoas: “Pedro pegou a mão direita do homem e o ajudou a se levantar” (3,7). Depois de curado o homem entrou no Templo. Ele voltou a fazer parte da sociedade. Mas, além de criar novos espaços, a comunidade também precisava de uma nova ordem.
As comunidades se organizaram a partir da casa (12,12). Numa casa as pessoas estavam unidas por algum laço de parentesco ou por alguma relação de trabalho ou colaboração. Mas nas casas-comunidades cristãs, pela fé em Jesus, as pessoas se consideravam irmãos e irmãs (1,15), sentiam-se acolhidos/as e partilhavam o pão (2,42), eram discípulos e discípulas (6,1), cristãos e cristãs (11,26).
E no livro dos Atos dos Apóstolos os seguidores e seguidoras de Jesus são enviados para anunciar a boa nova, afim de que as pessoas se arrependam, e cada uma seja batizada “em nome de Jesus, para o perdão dos pecados; depois elas receberão o dom do Espírito Santo” (2,38; 5,31). Para o movimento de Jesus perdoar os pecados é libertar a pessoa, inclusive da escravidão da Lei. É soltar as amarras impostas pela lei do puro e impuro. Isto só era possível mediante a fé em Jesus Cristo e a presença do Espírito Santo. As comunidades entendiam que a morte e a ressurreição de Jesus era uma “oportunidade ao povo de se arrepender e receber o perdão dos pecados” (5,31b).
O movimento de Jesus é um movimento do Espírito: cria, organiza, profetiza, liberta, restaura, produz nova vida... É o Espírito de Jesus que anima e fortalece a vida das primeiras comunidades: “as igrejas gozavam de paz em toda a Judéia, Galiléia e Samaria. Elas se edificavam e andavam no temor do Senhor, repletas da consolação do Espírito Santo” (9,31; 13,52). As comunidades, sob a luz do Espírito, vão ao encontro de todos: judeus e não-judeus (11,15; 10,44-45.47). A presença do Espírito ajuda na busca de solucionar os conflitos existentes (15,8.28), acompanha os que coordenam as comunidades (20,28): os/as apóstolos/as (5,32;15,28); as diversas lideranças (6,3), os/as missionários/as ( 13,4).
Da convivência solidária nasce uma nova experiência do Espírito. Esta experiência possibilita a compreensão da boa nova (2,6). É uma energia vital que coloca as pessoas em sintonia com o projeto de Deus e as impulsiona para a missão (2,42-47;4,32-35;5,12-14).
Nos dias de hoje, em nossos encontros e momentos de oração pedimos as luzes do Espírito Santo. Continuamos acreditando na sua força e nos dons que ele nos concede. É na vivência comunitária, vivificada pela força e ação do Espírito Santo, que recebemos forças para enfrentar os desafios e sofrimentos do dia a dia. A presença do irmão, da irmã nos ajuda a viver melhor. O fardo fica mais leve. A solidariedade da comunidade sustenta a missão.
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